Misericórdia não é prêmio


A palavra “misericórdia” tem um sabor gostoso. Ela aparece cerca de 150 vezes na Bíblia (RA); quase a metade delas, no livro dos Salmos. “Tem misericórdia de mim” é o primeiro versículo de alguns salmos (4.1; 51.1; 56.1; 57.1) e a expressão “a sua misericórdia dura para sempre” aparece em 26 versículos do Salmo 136, em oito outros salmos e em muitas outras passagens do Antigo Testamento.

Misericórdia não é prêmio, não é galardão, não é recompensa. Aquele que comete pecado contra Deus não merece misericórdia, como admite Jacó numa situação de extremo perigo: “Não sou digno da menor de todas as misericórdias e de toda a tua fidelidade para comigo” (Gn 32.10). 

A confissão “não sou digno” ou “não mereço” precede, implicitamente ou não, a famosa e repetida súplica dos cristãos: “kyrie eleison” (misericórdia, Senhor). Esta palavra existe porque a palavra “pecado” existe. 

Deus não tem obrigação de perdoar e derramar novas bênçãos. Se Ele intervém em nosso favor é apenas porque “a sua misericórdia dura para sempre”, ou “eterno é o seu amor”.

“A misericórdia é experimentada e exercida por uma pessoa que tem outra sob o seu poder ou debaixo de sua autoridade ou de quem nenhuma bondade pode ser reivindicada”, como explica Peter C. Craigie, da Universidade de Calgary, no Canadá. Num sentido jurídico, continua o professor, “a misericórdia pode envolver atos como o perdão, a absolvição ou a diminuição de penas”.

A necessidade que todos temos de misericórdia é uma declaração explícita de que todos somos pecadores. Seria muito bom começarmos cada oração com a súplica dos dois cegos de Jericó: “Senhor, filho de Davi, tem misericórdia de nós” (Mt 20.30).
 
Corremos o risco tanto de fazer cerimônia quando a misericórdia nos é oferecida quanto de abusar dela. É difícil dizer qual dos dois é o pior!

da Revista Ultimato ed.339
(foto Internet )

 

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